Um dos maiores problemas deste século é a obesidade. Especialmente a obesidade infantil é uma questão de saúde pública que preocupa as autoridades de saúde em todo o mundo.
Embora a obesidade infantil seja geralmente associada a países mais desenvolvidos, na verdade, é um problema global. Nos países em desenvolvimento, especialmente nas áreas urbanas, esse problema está se tornando cada vez mais comum devido à mudança dos padrões alimentares tradicionais e ao estilo de vida mais sedentário.
Ser obeso na infância aumenta significativamente a probabilidade de ser obeso na idade adulta. Essa condição aumenta o risco de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, distúrbios do sono e problemas nas articulações surgirem em idades mais precoces, além de trazer efeitos psicológicos e sociais.
Esse assunto é tão preocupante que a Organização Mundial da Saúde (OMS) criou uma comissão especial para acabar com a obesidade infantil: em 2016, foi publicado um relatório contendo linhas de ação fundamentais para enfrentar esse sério problema. Entre essas linhas de ação estão medidas como promoção do aleitamento materno, melhoria do ambiente alimentar nas escolas, aumento da atividade física e regulamentação da publicidade direcionada às crianças.
Quais são as Causas?
O aumento da obesidade infantil é resultado das mudanças sociais e de estilo de vida ocorridas nos últimos anos. Isso não diz respeito apenas ao que a criança come, mas também a muitos fatores que cercam sua vida diária.
Mudanças na Alimentação
Por um lado, a dieta mediterrânea tradicional, rica em frutas, vegetais, leguminosas, grãos integrais, azeite e peixe, está sendo abandonada. Em seu lugar, um modelo alimentar menos saudável está se estabelecendo.
Esse novo modelo baseia-se em alimentos ultraprocessados e de alta energia. Esses alimentos são ricos em gorduras não saudáveis, açúcares adicionados e sal, mas são bastante pobres em nutrientes essenciais como vitaminas, minerais e fibras. São tipos de alimentos conhecidos como fast food ou "junk food".
Frequentemente, produtos industrializados como salgadinhos, doces ou produtos açucarados são usados como lanches para crianças, em vez de oferecer frutas, nozes naturais ou um simples sanduíche. Isso porque esses produtos processados são mais práticos, mais acessíveis e geralmente mais atraentes para as crianças.
A falta de tempo, as horas de trabalho e, às vezes, os preços baixos de certas opções fazem com que alimentos prontos e cadeias de fast food sejam preferidos em detrimento da cozinha tradicional. Além disso, muitos desses produtos contêm gorduras trans, farinhas refinadas e altas quantidades de açúcar, o que promove o ganho de peso.
Um Estilo de Vida Cada Vez Mais Sedentário
Ao mesmo tempo, a quantidade de atividade física que realizamos está diminuindo. Especialmente as crianças têm agora muitas atividades de lazer completamente sedentárias e tornaram-se dependentes das novas tecnologias.
Após as horas que passam na escola e em atividades extracurriculares, geralmente, em vez de ir ao parque ou brincar ao ar livre, passam o tempo assistindo televisão, jogando no tablet ou jogando videogames. Essa situação reduz significativamente o gasto energético diário.
Além disso, muitas casas têm televisão, consoles de videogame ou computadores no quarto das crianças, o que leva as crianças a passarem mais tempo sentadas e a terem distúrbios no sono. Essa situação está diretamente relacionada ao risco de obesidade.
Outros Fatores Influentes
A principal causa do excesso de peso e da obesidade é o desequilíbrio entre as calorias consumidas e as calorias gastas, mas muitos fatores desempenham um papel nesse desequilíbrio:
- Fatores Individuais: hábitos alimentares, nível de atividade física, horários de sono, tempo de tela, gerenciamento emocional e fome.
- Fatores Familiares: tipos de alimentos comprados, formas de cozinhar, exemplos dados pelos adultos, hábitos alimentares, presença de televisão durante o jantar, disponibilidade de doces ou refrigerantes em casa.
- Ambiente e Contexto: possibilidade de ir à escola a pé, presença de parques e áreas seguras, oferta de lazer ativo ou sedentarismo, presença de anúncios de produtos açucarados, máquinas de venda automática e cardápios sobre políticas escolares.
Portanto, a obesidade infantil é um problema multifatorial. Embora tenha influência genética, o ambiente alimentar e de atividade física desempenha um papel muito importante e podemos agir de forma eficaz nessa área.
É Possível Encontrar uma Solução?
As instituições de saúde recomendam agir em vários níveis para parar a obesidade infantil: desde políticas públicas até ações em casa e na escola.
A OMS sugere que os governos desenvolvam estratégias abrangentes. Essas estratégias incluem:
- Promoção do aleitamento materno, como única fonte de alimentação nos primeiros meses e, posteriormente, junto com outros alimentos.
- Melhoria do ambiente alimentar escolar: controle dos produtos vendidos em refeitórios, cafeterias e máquinas de venda automática; maior disponibilidade de frutas, vegetais e água.
- Promoção da atividade física diária na infância, com educação física de qualidade, áreas de recreação ativas e atividades extracurriculares.
- Restrição de anúncios de alimentos e bebidas não saudáveis para crianças, especialmente para produtos com alto teor de açúcar, gordura e sal.
- Revisão de impostos e rotulagem, para não incentivar o consumo de bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados, e para ajudar as famílias a identificar melhor o conteúdo de açúcar e gordura.
O Que Podemos Fazer em Casa?
Com certeza. A responsabilidade direta pela boa alimentação e hábitos ativos de nossos filhos é da família. Embora o ambiente tenha influência, as decisões diárias são tomadas em casa.
Educação para hábitos saudáveis desde os primeiros anos é a melhor estratégia preventiva. Isso envolve promover de forma razoável tanto a alimentação quanto a atividade física, a higiene do sono e o uso de telas.
Alimentação: O Que e Como Comer Todos os Dias?
Fazer 5 refeições por dia ajuda a manter os níveis de açúcar no sangue e insulina mais estáveis e previne “crises de fome”. Idealmente, três refeições principais e dois lanches saudáveis é o melhor.
Não pule o café da manhã. Esta é uma refeição importante para as crianças também. Pesquisas mostram que muitas crianças com problemas de obesidade não tomam café da manhã ou o fazem de forma muito incompleta. Isso está relacionado ao risco de sobrepeso e queda no desempenho escolar. Um café da manhã adequado deve incluir um destes grupos: frutas frescas, laticínios sem adição de açúcar e grãos integrais ou pão.
Para o lanche da manhã e o lanche, sempre opte por opções simples e nutritivas: fruta inteira, um sanduíche simples com ingredientes saudáveis (queijo fresco, homus, peito de peru de qualidade, água ou atum em azeite) ou um punhado de nozes naturais para crianças maiores. Como o pão de sanduíche geralmente contém mais açúcar e aditivos do que parece, é melhor optar por pão integral ou normal.
Se as crianças comerem em casa, não baseie os cardápios apenas em macarrão ou arroz, por mais que gostem. Embora esses alimentos sejam válidos, devem ser apresentados alternadamente com outros alimentos, como leguminosas, vegetais, peixe e refeições leves. As leguminosas fornecem proteínas de qualidade, fibras e saciedade, ajudando no controle de peso.
As crianças devem jantar todos os dias, mas nem tudo é aceitável. O jantar é um bom momento para incluir opções saudáveis, como sopas de legumes caseiras, sopas, peixe, ovos, salada ou legumes cozidos no vapor. Evite transformar o jantar em um momento para refeições excessivamente gordurosas ou muito processadas.
Métodos para Tornar as Refeições Mais Saudáveis
O método de cozimento tem um efeito direto sobre as calorias e a qualidade da dieta. Prefira grelhar, cozinhar no vapor, assar ou cozinhar no próprio suco. Essas técnicas preservam melhor os nutrientes e requerem menos gordura. Evite frituras e pratos empanados; eles podem ser feitos ocasionalmente, mas não diariamente.
Se as crianças comerem na escola, peça o cardápio semanal. Verifique se o cardápio inclui diversas refeições, legumes, leguminosas e peixe e use essa informação para complementar a dieta em casa (por exemplo, se pouco peixe for servido na escola, ofereça mais peixe no jantar ou nos fins de semana).
Prefira usar grãos integrais (pão integral, macarrão integral, aveia) em vez de farinhas refinadas, pois fornecem mais fibras e aumentam a sensação de saciedade. Além disso, você pode oferecer pequenas quantidades de nozes sem sal e sem açúcar (avelãs, nozes, amêndoas) na idade apropriada; elas são uma fonte saudável de ácidos graxos ômega 3 e 6.
Evite gorduras trans e outras gorduras de baixa qualidade encontradas em muitos alimentos processados, produtos industriais e fast food. Minimize a quantidade de produtos de charcutaria gordurosos e carnes excessivamente processadas, pois geralmente contêm muito sal.
Reduza conscientemente a quantidade de açúcares livres. Isso inclui açúcar visível (o açúcar que adicionamos ao leite ou iogurte) e açúcar oculto (biscoitos, cereais matinais, bebidas açucaradas, sucos de frutas embalados, milkshakes, sobremesas lácteas, molhos comerciais ou produtos de pastelaria). Tentar não consumir mais de 25 gramas de açúcar adicionado por dia é uma boa referência para as crianças; isso pode ser alcançado evitando esses produtos e priorizando alimentos frescos.
Hábitos à Mesa e Educação Nutricional
Rotinas à mesa e o ambiente durante as refeições são tão impactantes quanto o tipo de alimento. Tente garantir que as refeições sejam feitas em família sempre que possível.
Comer juntos, sem telas e distrações (sem televisão, telefones ou tablets) incentiva as crianças a comerem de forma tranquila, prestarem atenção aos sinais de fome e saciedade e aprenderem a apreciar a comida. Este é um bom momento para conversar, fortalecer laços e ouvir sobre como foi o dia.
Explique a eles, em uma linguagem adequada à idade, por que uma boa alimentação é importante. Ajude-os a distinguir os alimentos que podem consumir diariamente (frutas, legumes, leguminosas, água, nozes naturais, pão integral) e os alimentos que devem ser reservados para ocasiões especiais (bebidas gaseificadas, doces, produtos de pastelaria, fast food).
Ofereça porções adequadas às necessidades das crianças. O prato não deve estar sempre cheio ou forçado a terminar se estiverem satisfeitas. O ideal é oferecer porções razoáveis e permitir que peçam mais se ainda estiverem com fome; evite usar a comida como recompensa ou punição.
Às vezes, deixe que tenham uma recompensa controlada. Em vez de proibir completamente doces, pizzas ou sorvetes, indique que esses produtos não devem fazer parte da rotina diária e devem ser consumidos em momentos específicos e planejados.
Atividade Física e Menos Sedentarismo
A OMS é clara: as crianças devem ser fisicamente ativas todos os dias. A recomendação geral é que realizem pelo menos 60 minutos de atividade física de intensidade moderada ou alta por dia; isso deve ser adequado à sua idade e desenvolvimento. Além disso, recomenda-se minimizar o tempo que passam sentadas.
Você não precisa matriculá-los em uma academia. Existem muitas maneiras simples de adicionar movimento à rotina diária deles: ir à escola a pé ou de bicicleta, usar as escadas em vez do elevador, ajudar nas tarefas domésticas que exigem movimento, brincar no parque após a escola.
Se forem mais velhos, podem participar de uma atividade esportiva: esportes em equipe, artes marciais, natação, dança, patinação, caminhadas ou qualquer disciplina que os motive. O importante é que vivam o exercício como algo divertido e o vejam como uma parte natural de seu estilo de vida; não como uma punição por estarem acima do peso.
Além disso, é importante limitar as atividades de lazer sedentárias; como videogames, televisão, telefones ou tablets. É útil estabelecer um tempo diário de tela em família e oferecer alternativas ativas de lazer em casa e fora.
Outros Hábitos Importantes: Sono e Organização Familiar
O sono é outro elemento fundamental na prevenção da obesidade infantil. Dormir pouco está associado ao risco de ganho de peso excessivo, pois interfere nos hormônios que afetam o apetite, levando a criança a comer mais e se mover menos.
Recomenda-se estabelecer horários regulares de sono, desenvolver uma rotina tranquila antes de dormir (sem telas e com luz suave) e garantir que a criança durma a quantidade adequada de horas para sua idade. Um bom descanso também melhora o desempenho escolar e o humor.
Do ponto de vista familiar, incluir todos os membros nas decisões sobre alimentação e atividade física é muito útil: fazer a lista de compras juntos, definir o cardápio semanal, cozinhar em família ou planejar atividades de lazer ativas.
Sinais de Alerta e O Que Fazer se Houver Excesso de Peso?
Um diagnóstico oficial deve ser feito por um especialista, mas em casa você pode observar alguns sinais de risco precoces:
- Aumento rápido de peso em curto período, que não coincide com o crescimento em altura.
- As roupas estão ficando apertadas rapidamente.
- Comer frequentemente fora dos horários das refeições ou consumo constante de lanches não saudáveis.
- Atividade física muito baixa ou rejeição sistemática de se mover e brincar.
- Dificuldade para dormir, ronco intenso ou sono não reparador.
- Queixas de dor no joelho, tornozelo ou costas sem uma razão aparente.
Se você observar essas características, é recomendável consultar um pediatra ou especialista em endocrinologia pediátrica; assim, o crescimento e os hábitos da criança podem ser avaliados. Na infância, o objetivo nem sempre é “fazer uma dieta rigorosa”; em vez disso, é importante melhorar os hábitos e equilibrar o peso da criança enquanto ela cresce.
Se já houver excesso de peso, a estratégia mais eficaz geralmente será fazer mudanças graduais em toda a família:
- Aumentar a qualidade dos alimentos oferecidos (mais frescos, menos processados).
- Aumentar gradualmente a atividade física diária, começando com pequenas mudanças.
- Estabelecer horários regulares para as refeições e o sono, evitando comer na frente da tela.
- Oferecer apoio emocional, evitando comentários negativos sobre peso e rótulos como “gordo” ou “preguiçoso”.
E não se esqueça, o melhor exemplo é você. Suas decisões diárias sobre compras, cozinhar, comer e se mover servem como um modelo para as crianças. Transforme sua família em uma família ativa: saiam para caminhar juntos, visitem o parque, brinquem, pratiquem um esporte em conjunto ou simplesmente movam-se mais em casa e fora.
A partir de hoje, estabelecer uma rotina de alimentação equilibrada, atividade física regular, um bom descanso e menos tempo de tela não apenas previne a obesidade na infância, mas também estabelece as bases para uma vida adulta mais saudável; isso reduz o risco de doenças e aumenta o bem-estar físico e emocional.
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